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Tecnologia, sabor e nicotina: avanço do vape preocupa especialistas

29 de maio de 2026

Coloridos e aromatizados, cigarros eletrônicos ganham espaço entre adolescentes e podem causar lesões pulmonares severas

Tecnologia, sabor e nicotina: avanço do vape preocupa especialistasJuliana Alvarenga, oncologista da São Bernardo Samp – Foto: Divulgação

Colorido, aromatizado, com visual tecnológico e aparência “inofensiva”, o cigarro eletrônico ganhou espaço entre os adolescentes brasileiros – e acendeu um alerta entre especialistas. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo IBGE, mostram que o consumo de vape entre jovens de 13 a 17 anos praticamente dobrou nos últimos cinco anos: em 2024, 29,6% dos adolescentes afirmaram já ter experimentado o dispositivo, contra 16,8% em 2019. No Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio, médicos reforçam o alerta: o dispositivo eletrônico pode provocar dependência química acelerada, danos pulmonares graves e aumentar o risco de câncer.

“O principal risco é a iniciação precoce à dependência de nicotina. O cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas ligadas ao controle de impulso, memória e recompensa, o que torna a nicotina muito mais viciante nessa fase da vida”, afirma Juliana Alvarenga, oncologista da São Bernardo Samp.

Tecnologia, sabor e nicotina: avanço do vape preocupa especialistasFabrício Smiderle, pneumologista da São Bernardo Samp – Foto: Divulgação

“Roupa tecnológica” para um velho vício

O pneumologista Fabrício Smiderle, da São Bernardo Samp, explica que, embora o cigarro tradicional funcione pela combustão do tabaco e o vape aqueça líquidos com nicotina e aromatizantes, ambos são nocivos ao organismo.

“O vape não produz fumaça como o cigarro convencional, mas isso não significa que seja seguro. O vapor contém metais pesados, compostos tóxicos e substâncias inflamatórias capazes de causar lesões importantes nos pulmões e no sistema cardiovascular. A indústria conseguiu embalar a velha dependência da nicotina em um formato tecnológico, com cheiro de tutti-frutti e aparência de gadget moderno. O adolescente olha para aquilo e acredita que está apenas inalando vapor de água. Não está”, garante o médico.

Dependência rápida e silenciosa

Os especialistas afirmam que há alta concentração de nicotina presente em alguns desses dispositivos descartáveis. Há modelos cuja carga equivale ao consumo de dezenas de cigarros tradicionais. “Como o vapor é mais suave e tem sabor adocicado, o jovem consome nicotina de forma contínua, sem perceber. Isso acelera a dependência e aumenta os impactos no cérebro em desenvolvimento”, explica Juliana.

Fabrício acrescenta que essa superdosagem pode provocar crises de ansiedade, taquicardia, tremores e intoxicação aguda por nicotina. “O vape foi projetado para viciar rápido. Um único vape descartável pode conter a mesma quantidade de nicotina de um a dois maços de cigarro convencionais. Mas como o vapor não queima a garganta e tem gosto de chiclete, o jovem consome isso em poucas horas, sem perceber. O cérebro do adolescente, que ainda está em formação, é sequestrado por essa química muito mais rápido do que o de um adulto”, alerta o pneumologista da São Bernardo Samp.

Lesão pulmonar grave pode levar jovens à UTI

Além dos riscos de longo prazo, os médicos chamam atenção para um problema mais imediato: a EVALI, sigla em inglês para uma inflamação aguda e severa nos pulmões causada pela inalação das substâncias químicas presentes no cigarro eletrônico.

“O grande vilão por trás disso costuma ser o acetato de vitamina E, um aditivo muito usado para diluir os óleos nos cartuchos. Pense no pulmão como uma esponja feita para receber apenas uma coisa: oxigênio. Quando a pessoa aspira o vapor do cigarro eletrônico, esse acetato de vitamina E entra em estado gasoso, mas assim que esfria dentro dos alvéolos, os saquinhos de ar do pulmão, ele volta a virar um óleo espesso. O pulmão fica literalmente melado de gordura por dentro. O sistema de defesa do corpo entra em pânico e dispara uma reação inflamatória brutal para tentar expulsar o invasor. Essa reação destrói o próprio tecido pulmonar, fazendo o órgão perder a capacidade de transferir o oxigênio para o sangue. É um quadro que pode levar adolescentes saudáveis para a UTI em poucas semanas ou meses de uso”, explica Smiderle.

Os sintomas são semelhantes aos de uma pneumonia grave ou de uma gripe forte que não passa: falta de ar progressiva, tosse seca, dor no peito, febre, cansaço intenso e até sintomas gastrointestinais, como náuseas e diarreia.

Risco de câncer preocupa especialistas

Embora o cigarro eletrônico seja relativamente recente e ainda existam poucos estudos de longo prazo, especialistas afirmam que já existem evidências de danos celulares relacionados ao vape. “No cigarro tradicional, sabemos que as substâncias cancerígenas provocam mutações no DNA e estão associadas a cânceres de pulmão, boca, laringe, esôfago e bexiga. No vape, já há sinais de inflamação, estresse oxidativo e lesão genética – mecanismos biológicos que também estão ligados ao desenvolvimento de câncer”, afirma a oncologista Juliana Alvarenga.

O maior alerta, segundo os especialistas, é evitar que o vape repita a trajetória do cigarro convencional, cujos efeitos devastadores levaram décadas para serem plenamente reconhecidos.

“Não estamos falando de um problema de saúde para o futuro. Estamos criando crianças e adolescentes dependentes químicos hoje, uma geração que pode chegar à vida adulta com pulmões inflamados, sistema cardiovascular comprometido e dependência química instalada muito cedo”, conclui Fabrício.



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