Polícia investiga se houve intolerância religiosa em incêndio em Memorial Quilombola, em Conceição da Barra, ES
12 de agosto de 2022No incêndio, as imagens religiosa de Xangô e Santa Barbára, padroeira da comunidade quilombola do Linharinho, em Conceição da Barra, Norte do estado, foram destruídas e parte do local ficou danificado
Mestra Gessi Cassiano lamenta pela destruição de parte do Ponto de Memória Jongo de Santa Bárbara – Foto: Reprodução/TV Gazeta
As investigações da Polícia Civil sobre o incêndio que destruiu parte do Ponto de Memória Jongo de Santa Bárbara, localizado na comunidade quilombola do Linharinho, em Conceição da Barra, no Norte do Espírito Santo, na última terça-feira (9), continuam em andamento e uma das linhas de investigação é de que o incêndio pode ter sido causado por intolerância religiosa.
No incêndio, as imagens religiosas de Xangô e Santa Barbára, padroeira da comunidade, foram destruídas e parte do local ficou danificado. O memorial precisou ser interditado devido ao risco de desabamento do teto.
Peritos da Polícia Civil estiveram na comunidade coletando informações nesta quinta-feira (11) e algumas pessoas foram intimadas para prestar depoimento. À reportagem, a Polícia Civil disse uma das linhas de investigação é a de intolerância religiosa porque nada foi levado do local e o ponto alvo do incêndio foi o altar.
O memorial é considerado um espaço cultural que reúne a comunidade do Linharinho e já foi premiado com recursos do Fundo de Cultura do Espírito Santo (Funcultura) para manutenção e difusão de suas atividades.
A cidade tem outras 10 comunidades quilombolas e outros dois pontos de memória. O secretário de Cultura do município, Adilson Poeta acompanha as investigações e também acredita que se trata de um incêndio criminoso.
"A gente sabe que a intolerância existe e pode ser um caminho para tal situação", disse o secretário.
Imagens destruídas em incêndio de memorial em comunidade quilombola em Conceição da Barra – Foto: Reprodução/TV Gazeta
A subsecretária estadual de Cultura, Carol Ruas, esteve no local nessa quinta-feira (11) e reforçou o apoio do estado na reconstrução do espaço.
"Para a sociedade de maneira geral, a gente tem um prejuízo simbólico, um ataque a um ativo cultural que contém a memória da comunidade e preserva as tradições, algo que é o patrimônio da cultura capixaba", disse a subsecretária.
O ponto de jongo é considerado importante para a manutenção da cultura africana e também é usado como ponto de encontro religioso. Uma das frequentadoras, a professora Simone Batista, também esteve no local depois de ver fotos do incêndio.
"Vi as fotos e é inacreditável. É muito triste, mas a gente vai reconstruir", disse a professora.
As imagens queimadas e quebradas foram guardadas em uma bacia.
"Eu nunca esperava que a gente dentro de uma comunidade poderia acontecer. Isso pra nós é muito triste", disse Gessi Cassiano, mestra de cultura de Santa Bárbara.
Apesar da destruição causada pelo incêndio, a mestra Gessi Cassiano disse que não vai deixar de preservar as tradições da comunidade.
"Eu não vou parar. Por tudo que eu já passei e ainda passo, não vou parar. Não sei o que eu sinto. É uma falta de respeito com o nosso povo", falou Gessi no dia do incêndio.
A Delegacia de Conceição da Barra continua com as investigações sobre o caso e, até o momento, nenhum suspeito foi preso.
Incêndio destruiu parte do memorial quilombola da comunidade do Linharinho, em Conceição da Barra – Foto: Reprodução
Valedoitaúnas (g1 ES)