“O Brasil é um país privilegiado no cenário geopolítico atual”
05 de março de 2026Em evento do Sistema Fecomércio-ES - Sesc e Senac, o professor e cientista político HOC analisou os impactos das guerras e tensões comerciais globais e explicou como a nova configuração pode abrir oportunidades estratégicas para o país
Palestrante HOC – Foto: Divulgação
As transformações que redesenham o varejo mundial e os efeitos diretos das disputas geopolíticas sobre os negócios estiveram no centro dos debates do evento Inovações e tendências no varejo, realizado nesta última terça-feira (3), no Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória. Promovido pelo Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac, o encontro reuniu empresários dos setores de bens, serviços e turismo, dirigentes sindicais e especialistas para uma imersão estratégica sobre o futuro do setor.
O ponto alto da programação foi a palestra do cientista político Heni Ozi Cukier, o professor HOC, referência nacional em geopolítica e economia internacional. Mestre em Resolução de Conflitos e Paz Internacional pela Universidade Americana, em Washington, ele comanda o maior canal de geopolítica do Brasil no YouTube e trouxe uma leitura abrangente sobre o cenário global e seus reflexos diretos na atividade empresarial.
HOC contextualizou o ambiente de instabilidade internacional, marcado pela guerra comercial entre Estados Unidos e China e pelas recentes tensões no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos e Irã. Segundo ele, embora os conflitos gerem incerteza, o Brasil ocupa hoje uma posição estratégica singular.
“Geograficamente, o Brasil é o país mais isolado do mundo, e dentro desse cenário geopolítico atual isso é maravilhoso. Se tivermos um cenário de conflito cada vez maior, nós estamos protegidos fisicamente”, afirmou. Para o professor, essa distância dos principais focos de tensão representa um ativo estratégico em tempos de instabilidade.
Ele destacou que o Brasil reúne tamanho territorial, mercado consumidor robusto e posição geográfica privilegiada. “Nós estamos em um lugar com o tamanho, com a população e com o mercado privilegiado. Ao mesmo tempo em que estamos longe dos problemas, passamos a nos tornar estratégicos para muita gente”.
HOC ressaltou ainda que a cadeia global de valor está sendo redesenhada e que o Brasil passou a ocupar papel central nessa reorganização. “China, Estados Unidos e Europa olharam para o Brasil e o colocaram como centro de gravidade. Isso cria uma oportunidade única, que aparece a cada cem anos”.
Para abordar sobre tendências do varejo internacional, o estrategista de Inovação e IA André Magno, representante da Fecomércio-ES na Câmara Brasileira de Tecnologia da Informação e Inovação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) subiu ao palco e detalhou o que tem sido debatido na NRF Retail’s Big Show, a maior feira de varejo do mundo promovida anualmente pela NRF, a Federação Nacional de Varejo dos EUA.
Ele destacou práticas com potencial de aplicação imediata no mercado brasileiro e citou exemplos de grandes empresas internacionais que têm inovado e estão crescendo em seus mercados. “Fanatics, uma gigante global de licenciamento esportivo, tem se destacado com técnicas como design e fabricação ágil. Por exemplo, após um jogo decisivo de futebol, a empresa vê uma oportunidade de negócio e lança uma nova camisa com um design diferente relacionado ao jogo para venda. Em seguida, investe em uma logística em tempo real, para que a entrega ocorra ainda mais rapidamente”.
Magno também reforçou a importância da IA nos negócios. “As IAs não recomendam os produtos que elas não confiam. Se seus dados, como preço e estoque, não forem confiáveis, a IA não indica seu produto nos resultados de busca. Outra forma importante de suporte da IA é dentro das empresas há ferramentas que trabalham nos bastidores e apoiam os funcionários, permitindo foco total no cliente. São plataformas que indicam as preferências dos clientes, para que a venda seja mais assertiva”.
Já o coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES, André Spalenza, apresentou um mapeamento inédito das transformações no mercado de trabalho do Espírito Santo, que revelou quais são as carreiras com maior crescimento e potencial de expansão nos próximos anos.
Foram avaliados cinco grandes eixos estratégicos, classificados como as chamadas Economias do futuro, classificação desenvolvida pelo Senac Nacional. São eles Economia Verde, Economia Criativa, Economia Digital, Economia do Turismo e Economia do Cuidado.
Entre as cinco economias do futuro, no Espírito Santo, a Economia Digital se destacou como a de maior dinamismo, de acordo com Spalenza. “Entre 2016 e 2024, o número de empregos formais no setor cresceu 75%, alcançando 10.222 vínculos em 2024. Além da expansão expressiva, trata-se de um conjunto de ocupações com elevada remuneração média, que chegou a R$ 6.533. Funções ligadas à tecnologia da informação, desenvolvimento de sistemas, programação e gestão digital lideram esse avanço”.
Ele explicou que o objetivo do levantamento é antecipar tendências e orientar tanto os trabalhadores quanto as instituições de ensino e as empresas sobre onde estão as melhores oportunidades. “O mercado de trabalho está passando por mudanças profundas, e quem se antecipa sai na frente”, explicou.
Relatório de Gestão
Durante o evento, foi feita a entrega do Relatório de Gestão do Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac. O presidente da entidade, Idalberto Moro, comentou sobre a importância da prestação de contas de todo o mandato por meio do Relatório.
“O Relatório é essencial para vermos os avanços, por meio de nossas ações, na economia, na parte assistencial, na educação e no turismo, segmentos que nossa entidade tem como missão promover e desenvolver”.
Ele também comentou sobre a necessidade do debate frequente sobre o varejo e o cenário socioeconômico e geopolítico nacional e internacional. “Esse encontro trouxe pautas atuais para os empresários, novos cenários para o varejo, já que tudo muda muito rapidamente e precisamos nos reinventar o tempo todo. Há novas maneiras de se trabalhar, de se comercializar, de atender o consumidor e nós, que somos empresários do comércio, estamos muito atentos a isso”.