Hospital Vitória Apart inaugura memorial em homenagem às famílias que autorizaram a doação de órgãos
26 de setembro de 2026Jardim reúne iniciais de pacientes e presta homenagem a quem transformou a dor da perda em novas oportunidades de vida
Foto: Divulgação
Um jardim para lembrar que algumas histórias continuam mesmo depois da despedida. Essa é a proposta do memorial inaugurado nesta sexta-feira (25), pelo Hospital Vitória Apart, na Serra, em homenagem às famílias que autorizaram a doação de órgãos e tecidos de seus entes queridos.
Como forma de preservar essas histórias, as iniciais dos pacientes doadores foram incorporadas ao memorial, em diferentes pontos do hospital, incluindo o jardim ao lado da capela e a recepção, criando espaços permanentes de memória e gratidão. A cerimônia também contou com uma homenagem musical apresentada pelo coral do próprio Hospital Vitória Apart, em um momento de reconhecimento às famílias que, diante da perda, escolheram permitir que outras vidas pudessem continuar.
A iniciativa integra as ações do Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos para transplantes. Para Rafael Brum, diretor técnico do Hospital Vitória Apart, o jardim memorial representa uma forma de reconhecer a generosidade das famílias que, mesmo diante da perda, autorizam a doação.
“A decisão de autorizar uma doação acontece em um momento de muita dor, mas pode representar uma oportunidade enorme para outras pessoas e suas famílias. É um ato de generosidade que merece ser reconhecido e lembrado”, destaca.
Andreia Pereira, presidente da Comissão de Doação de Órgãos do Hospital Vitória Apart, Amanda Fernandes, filha de um dos pacientes homenageados, e Sara Hintz, assistente social do hospital – Foto: Divulgação
Um olhar que continua
Entre as histórias representadas no espaço está a de Robson José Fernandes, que morreu em 2021 após um acidente. O pai de Amanda teve as córneas doadas, e, mesmo sem saber quem as recebeu, ela encontrou uma maneira de transformar a doação em uma forma de manter vivo o vínculo com ele.
“Às vezes dá vontade de saber para onde ele está olhando. A gente sabe que não tem como, porque é um protocolo, mas isso acaba confortando o coração da gente. É saber que, de alguma forma, o olhar dele ainda está por aí. Ele está vendo a vida ainda. E eu sinto gratidão, porque respeitamos o desejo dele e conseguimos ajudar outras pessoas”, afirma Amanda Fernandes.
Entenda o passo a passo da doação de órgãos
1. A equipe tenta salvar o paciente
A prioridade é sempre tratar o paciente. Mas, em algumas situações, apesar de todos os esforços, aquela lesão é irreversível e o paciente evolui para a morte encefálica. Nesse momento, começa um processo muito delicado.
2. A morte encefálica é confirmada
O diagnóstico segue um protocolo rigoroso, realizado por médicos habilitados, para comprovar que as funções do cérebro e do tronco encefálico foram perdidas de forma completa, definitiva e irreversível. “Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de compreender quando uma família está dentro de uma UTI: Como meu familiar pode ter morrido se o coração dele ainda está batendo? E essa dúvida é absolutamente compreensível. O coração pode continuar batendo porque a medicina intensiva consegue, temporariamente, manter a oxigenação e a circulação com aparelhos e medicamentos. Por isso, morte encefálica é morte, mesmo que aparelhos mantenham temporariamente a respiração e os batimentos cardíacos”, explica Lívia Frigeri, intensivista e coordenadora médica do Hospital Vitória Apart.
3. A família é acolhida e informada
Após a confirmação da morte encefálica e a avaliação da possibilidade de doação, a equipe conversa com os familiares e esclarece todas as dúvidas.
4. A família autoriza a doação
No Brasil, a doação depende da autorização da família, formalizada por meio de um termo. Por isso, conversar sobre o desejo de ser doador ainda em vida é tão importante. “No caso de maiores de 18 anos, a autorização pode ser dada por familiares até o segundo grau de parentesco. Para menores de idade, é necessária a autorização da mãe e do pai, ou do responsável legal. A família, portanto, tem o direito civil sobre o corpo e sobre essa decisão”, esclarece Andreia Pereira, presidente da comissão de doação de órgãos do Hospital Vitória Apart.
Jardim memorial do Hospital Vitória Apart Serra – Foto: Divulgação
5. O potencial doador é avaliado e a Central de Transplantes organiza a captação
São realizados exames e avaliações clínicas para identificar quais órgãos e tecidos podem ser utilizados com segurança. A Central Estadual de Transplantes coordena o processo, enquanto equipes especializadas realizam a retirada dos órgãos e tecidos. A distribuição segue os critérios do Sistema Nacional de Transplantes e a necessidade dos pacientes que aguardam transplante.
6. Os órgãos e tecidos seguem para transplante
Órgãos sólidos precisam ser encaminhados rapidamente, porque têm um tempo limitado de viabilidade fora do organismo. Tecidos, como a córnea, passam por processos específicos de preparação e podem ser utilizados posteriormente. “O tempo é muito precioso na doação. O coração tem cerca de quatro horas para ser transplantado após a captação, enquanto rins e fígado têm aproximadamente seis horas. Já a córnea pode ser transplantada até seis meses depois da retirada, pois passa por um processo de preparo. Cada órgão e tecido tem um tempo diferente de viabilidade, por isso precisamos correr contra o relógio”, detalha Andreia.
7. Uma doação, muitas vidas
Uma única doação de múltiplos órgãos pode beneficiar várias pessoas. Um potencial doador pode chegar a beneficiar até nove pacientes, dependendo dos órgãos e tecidos que possam ser aproveitados. “Se ele doa os dois rins, por exemplo, eu consigo beneficiar dois pacientes. Se doa as duas córneas, no caso do tecido ocular, são mais dois. Se doa o coração, mais uma pessoa; o fígado, às vezes, pode beneficiar até duas pessoas. E, se houver possibilidade de doação dos pulmões, mais uma. Então, a gente fala que um único doador pode beneficiar muitas vidas, aproximadamente de oito a nove pessoas”, explica Andreia.