“Farmar aura”: a busca por status que não é só de adolescente
24 de julho de 2026
Foto: Célio Barcellos
A gíria do momento entre adolescentes das gerações Z e Alpha, usada para acumular presença, estilo e pontos de carisma, chama-se “farmar aura”.
“Farmar” vem da repetição de ações para obter recursos nos jogos. Já “aura” designa a vibe cool, a confiança, o magnetismo e a energia que alguém transmite.
Assim, farmar aura nada mais é do que a busca por aceitação no grupo: uma espécie de encenação em que o adolescente assume um personagem para conquistar admiração e respeito dentro da sua panelinha.
Se olharmos para gerações anteriores, encontraremos equivalentes dessa prática, embora com outra “vibe”.
Em outras épocas, comportamentos semelhantes poderiam render a alcunha de “ideia de jerico” ou virar alvo fácil de bullying.
Por mais resiliência emocional que se atribua a essas gerações, ninguém queria passar pelo constrangimento do “mico”.
A cultura da internet, especialmente pelo TikTok, acelera a viralização e dá proporções globais a essas dinâmicas.
O grande desafio, portanto, é convencer filhos e adolescentes próximos de que a construção da imagem não precisa ser medida por uma brincadeira coletiva de pontuação social.
Particularmente, tenho me reunido com um grupo de adolescentes e jovens entre 15 e 23 anos em Santo Antônio de Posse-SP para bate-papos.
A experiência tem sido muito positiva. No primeiro encontro, trabalhamos o soneto “Na ribeira do Eufrates assentado”, de Luís de Camões, e conversamos sobre a análise do poeta acerca de seu exílio, comparando-a ao exílio dos judeus no Salmo 137. Discorremos sobre questões existenciais.
A partir do segundo tema, a escolha ficou por conta deles. A sugestão “Relacionamento”, proposta pela adolescente Nayra, gerou uma conversa tão rica e participativa que se estendeu por quase duas horas – e ainda continuou no momento do lanche.
O terceiro tema, que ocorrerá na próxima semana e foi proposto pela jovem Smirna, tratará de dilemas éticos e morais a partir da pergunta: “Até que ponto alguém é moralmente culpado quando pratica ou apoia o mal acreditando estar fazendo o certo?”.
Teremos uma semana para “viajar” até a Alemanha nazista, dialogar com alguns filósofos e nos demorar nas páginas da Bíblia, em busca de uma conversa elevada (Colossenses 3:1-4).
Esse tipo de abordagem é, certamente, um caminho eficaz para nos distanciarmos da “farma aura”. O problema, no entanto, não é exclusivo dos adolescentes: adultos também o enfrentam.
Eles podem não fazer o “showzinho” típico dos mais novos, mas mantêm o seu próprio espetáculo – especialmente quando as camarilhas (as panelas) se reúnem.
Atualizam apenas as apresentações; as encenações permanecem. Por não terem a vida resolvida, muitos adultos se infiltram em grupos para formar panelas e serem aceitos.
Para se manterem na turba, a performance exige falar mal da vida alheia, zombar das pessoas, criar apelidos que geram gargalhadas e, não raro, praticar sabotagens motivadas por inveja, desrespeito e pobreza de espírito.
Se a “farma aura” adolescente provoca certo “mico” e impaciência nos adultos, a versão adulta deveria envergonhá-los ainda mais.
Afinal, quando os adolescentes fazem isso apenas para serem aceitos, a mania tende a passar. Já quando adultos não resolvidos continuam a ferir a dignidade do próximo, não se trata mais de fase inicial de construção de identidade, mas de um defeito de caráter.
Devemos agradecer a Deus por Seus atos de misericórdia e bondade, que, por meio do evangelho da graça, nos oferecem o Espírito Santo para o arrependimento dos nossos pecados.
Para adolescentes e jovens, um bate-papo sobre coisas elevadas ajuda a eliminar o que é sem sentido, pois há tanto saber disponível que a “farma aura” se torna secundária.
O mesmo vale para os adultos. Se forem maduros na fé, na espiritualidade, nos relacionamentos sociais e na intelectualidade, certamente teremos famílias, trabalhos, igrejas e grupos mais saudáveis.
*Célio Barcellos é teólogo e jornalista freelancer - [email protected]