Drone no Desjejum: a Guerra que Bate à Porta
04 de junho de 2026
Foto: Celio Barcellos
Imagina uma família comum no sudeste da Romênia, em Galați, bem na fronteira com a Ucrânia e a Moldávia. Eles tomavam o café da manhã no apartamento quando um estrondo repentino interrompeu a rotina. Era um drone militar, lançado em meio ao conflito, que desviou do alvo e atingiu o prédio residencial.
Em meio às chamas e à fumaça que invadiam os corredores, o pânico se espalhou. Moradores evacuaram o prédio em massa, carregando o susto e a sensação de que a guerra, mesmo sem ser declarada contra eles, havia entrado em suas casas. Uma mulher e seu filho de 14 anos foram feridos. Nada grave fisicamente, mas o trauma foi profundo.
As guerras contemporâneas são assimétricas e, muitas vezes, covardes. Erros técnicos ou desvios “acidentais” diluem responsabilidades e tornam o horror difuso. Ninguém assume, mas o estrago permanece real.
O que impressiona hoje é como as fronteiras encolheram. Problemas que pareciam distantes agora batem à porta de lares comuns. A paz, palavra tão frágil, tornou-se refém de telas em bunkers distantes. Nem mesmo uma bandeira branca desesperada consegue conter a sanha da destruição moderna.
Aqui no Brasil, assistimos a uma versão ainda mais cotidiana dessa tragédia. Em favelas e periferias, facções criminosas impõem seu próprio terror, lançando balas perdidas e ceifando vidas inocentes. Diferente do drama romeno, porém, no Brasil o crime frequentemente parece compensar: gera status, poder e até certo glamour perverso. Enquanto isso, o cidadão que cumpre suas obrigações é tratado como eterno contribuinte de um sistema que o explora.
Aqueles moradores romenos não eram soldados. Não escolheram o conflito, nem pediram para nascer do “lado errado” da fronteira. Queriam apenas viver em paz. Mas a tecnologia barateou a morte: drones baratos, precisos o suficiente para errar, transformam o céu – outrora símbolo de liberdade – em ameaça silenciosa.
Dessa forma, em vez da liberdade épica celebrada por Camões ao enaltecer o Arcturo, restam-nos as densas trevas de ameaças remotas, controladas por dedos frios em salas escuras. O drone que caiu em Galați não foi apenas um acidente de guerra. Foi um lembrete incômodo: nenhum lugar está realmente longe o suficiente quando a humanidade decide resolver suas diferenças com fogo.
*Célio Barcellos é teólogo e jornalista freelancer – [email protected]