Brasil tem 2,4 milhões de pessoas com autismo. Mas as escolas estão preparadas para ensiná-las?
14 de agosto de 2026Seminário da Federação das Apaes do Espírito Santo reuniu mais de 200 profissionais para transformar o discurso sobre inclusão em estratégias concretas de aprendizagem
Seminário da educação da Feapaes-ES – Foto: Divulgação
No Brasil, 2,4 milhões de pessoas têm diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população, segundo o Censo 2022. Diante desse cenário, uma pergunta se torna cada vez mais urgente: as escolas sabem como alfabetizar uma criança autista, ensinar matemática, prevenir uma crise ou ajudá-la a comunicar o que sente?
Essas foram algumas questões presentes no seminário “Práticas Pedagógicas no AEE: Avaliação, Intervenções e Estratégias Educacionais para o TEA”, promovido pela Federação das Apaes do Espírito Santo (Feapaes-ES) e que reuniu mais de 200 professores, pedagogos e gestores das Apaes capixabas, em Vitória, no Espírito Santo.
O encontro partiu de uma provocação direta: garantir a matrícula não significa, por si só, garantir inclusão. Para que o estudante participe, aprenda e desenvolva autonomia, a escola precisa de conhecimento especializado, avaliação individualizada e intervenções respaldadas por evidências.
Lucelmo Lacerda de Brito – Foto: Divulgação
“Não existe inclusão escolar verdadeira sem que o professor tenha conhecimento especializado para compreender as necessidades do estudante e adotar estratégias adequadas de ensino”, afirmou o pesquisador Lucelmo Lacerda de Brito, uma das principais referências brasileiras em Educação Especial para pessoas com autismo.
Em sua palestra, Lucelmo defendeu que o debate precisa ultrapassar os discursos genéricos de valorização das diferenças e chegar às situações enfrentadas diariamente nas salas de aula. “A gente não quer mais saber apenas que somos todos iguais. A gente quer saber como alfabetizar a criança autista, como ensinar matemática, como lidar com uma crise, o que fazer quando a criança tem um problema emocional”, destacou.
Em sua apresentação, Lucelmo destacou ainda o papel estratégico do Atendimento Educacional Especializado (AEE) na orientação e supervisão dos profissionais de apoio escolar, apresentando estratégias educacionais que podem ser incorporadas à rotina escolar, como: o uso de recursos visuais para antecipar atividades, a oferta de escolhas, o reforço positivo, a utilização dos interesses do estudante e a avaliação da função dos comportamentos desafiadores.
“O AEE atua de forma complementar à escolarização, identificando barreiras e desenvolvendo recursos e estratégias que favoreçam a autonomia, a participação e a aprendizagem dos alunos público-alvo da Educação Especial. Nesse trabalho, são considerados não apenas as características e os desafios do estudante, mas também o ambiente, os recursos disponíveis e as práticas adotadas pela escola”, reforçou o pesquisador.
Comportamento também é comunicação
A relação entre comunicação, linguagem e comportamento foi aprofundada pela psicóloga Camila Nasser Mancini, mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Durante a palestra, ela chamou a atenção para a necessidade de compreender o que uma atitude pode estar comunicando antes de classificá-la apenas como agressividade, desobediência ou recusa.
“Todo comportamento comunica alguma coisa. Quando uma criança é agressiva, por exemplo, pode ser porque ainda não desenvolveu repertório de vocabulário, comunicação verbal ou gestual para explicar o que está sentindo”, explicou.
Gabriel Silva Pereira Bessa Couto – Foto: Divulgação
O psiquiatra Gabriel Silva Pereira Bessa Couto também abordou o manejo comportamental e a autorregulação emocional no contexto escolar. Entre as estratégias apresentadas estiveram a antecipação de mudanças, a organização de rotinas previsíveis, o uso de instruções objetivas, a redução de estímulos, o reforço de pequenos avanços e a criação de espaços e momentos de regulação.
Gabriel ressaltou que, durante uma crise, a criança pode perder temporariamente a capacidade de organizar ideias, controlar impulsos e conversar racionalmente. Por isso, discutir, gritar ou aplicar longos castigos tende a não produzir aprendizagem. O caminho passa por garantir segurança, reduzir estímulos e retomar o diálogo quando houver equilíbrio emocional.
Ele também reforçou a importância da atuação conjunta entre família e escola. “Quando a família e a escola falam a mesma linguagem, a criança evolui mais rapidamente. O aluno não precisa de uma professora perfeita, mas de uma equipe escolar que continue tentando compreender suas necessidades. Cada pequena evolução merece ser celebrada”, destacou.
Autonomia precisa ser ensinada
Luiz Fernando Zuin – Foto: Divulgação
O desenvolvimento das habilidades sociais como ferramenta de autonomia foi o tema da palestra do doutor em Educação Especial e coordenador da Federação Nacional das Apaes (Fenapaes), Luiz Fernando Zuin.
Segundo o especialista, habilidades como comunicar necessidades, fazer escolhas, lidar com conflitos, pedir ajuda e expressar sentimentos devem integrar o planejamento pedagógico. Para isso, é necessário avaliar o repertório de cada estudante, identificar quais competências ainda precisam ser desenvolvidas e, principalmente, verificar se ele teve oportunidades e suporte adequados para aprendê-las.
Zuin ressaltou que respeitar as especificidades das pessoas com deficiência intelectual, deficiência múltipla e autismo é fundamental para garantir avanços que ultrapassem o ambiente escolar. “Todo mundo sonha. E nós precisamos sonhar com esse estudante, capaz de assumir papéis cada vez mais importantes na própria vida. Quando a Apae promove sua inclusão no mundo do trabalho e nos espaços de convivência social, está ajudando a construir esse futuro”, afirmou.
Para o diretor social da Feapaes-ES, Vanderson Gaburo, o seminário reforça o compromisso da rede com a formação de seus profissionais e o aprimoramento do atendimento oferecido aos estudantes das Apaes. “Acreditamos que a educação transforma vidas e amplia oportunidades. E como fazemos transformação social todos os dias nas Apaes? Qualificando cada vez mais os nossos profissionais e aperfeiçoando nossas estratégias de atuação, com práticas e caminhos para melhorar, cada vez mais o atendimento aos assistidos”, afirmou Vanderson.